Entrevista com Os Lacraus

27 02 2007

“Os Lacraus” é uma banda “panque-roque” de Portugal muito curiosa! Com suas letras religiosas, sempre com uma pitada de esculhambação, e registros altamente Lo-Fi, Os Lacraus apareceram certo dia no meu MySpace. Curioso, corri atrás dos caras para uma entrevistinha que você confere aqui e agora!

Primeiramente, quem são Os Lacraus? Quem faz parte da banda e o que faz nela?

Aos Lacraus pertencem Tiago Guillul (que responde a esta entrevista), Miguel Sousa, e Ricardo Oliveira. Todos cantamos, tocamos guitarra, órgão e bateria embora na maioria das vezes eu esteja na guitarra cantando a voz principal, o Guel na bateria e o Ricardo no órgão.

Os Lacraus não é a primeira banda que vocês participam. Quais foram os outros projetos dos quais vocês já participaram.

Ui. Em rigor a resposta teria de ser muito longa, na medida que começámos a tocar juntos em 1993, 94. Mas terei de mencionar os Bible Toons (que mais tarde foram A Instituição) que foram uma espécie de fenómeno local no hardcore punk de Queluz, ainda no final do anos 90. Depois Guel, Guillul & o Comboio Fantasma (de que o Ricardo não fazia parte) que foram o prelúdio daquilo que os Lacraus são actualmente (tocamos mesmo ao vivo alguns temas desse tempo – 2000-2003).

Como vocês classificariam o seu som? Quais são as principais influências?

O nosso som é basicamente panque-roque (punk rock para os puristas). Mas devemos mencionar a importância do soul e de algum blues. Depois tentamos adicionar-lhe um espírito minimamente português, que se aproxime de alguma maneira da música tradicional daqui (não sei se temos sucedido).

Em praticamente todas as canções, notamos um certo tipo de arranjo vocal harmônico muito interessante. De onde vem a inspiração pra fazer este tipo de arranjo, que, devo dizer, torna o som de vocês muito peculiar?

É da tal importância do soul. Também está relacionado com o facto de ao crescermos na igreja ganharmos familiaridade com as harmonias vocais. Somos amarrados em harmonias vocais, como vocês diriam aí.

A estética do som de vocês é nitidamente Lo-Fi. Como é o processo de gravação de suas canções? Isso é proposital ou é resultado daquilo que vocês tem à mão para registrar suas musicas?

O nosso som é lo-fi embora não resulte de nenhuma dedicação exclusiva. Se um dia gravarmos com alta-fidelidade, não será para nós nenhuma blasfêmia.
Sobretudo resulta de aproveitarmos os meios ao dispor e de nos divertirmos bastante com os resultados inesperados que qualquer gravação nos oferece. Creio que a maior parte das bandas não encara o processo de gravação como um prazer. O lado laboratorial dos sons é fascinante. Quando gravamos sabemos bem a canção que vamos tocar mas como as coisas vão soar é sempre uma surpresa. Não levamos grandes planos de como gostaríamos que as coisas soassem. Deixamos que seja o momento a orientar o som e não o oposto. Chamem-lhe música com narrativa. A maior parte das coisas gravadas em estúdio suspende a História, os acontecimentos, as contingências, as limitações. Falta-lhe alguma dose de humanidade.

Constantemente as letras de suas músicas abortam temas cristãos e teológicos. Sendo cristãos, como vocês se vêem dentro do cenário da música independente portuguesa e até mesmo mundial? Vocês se vêem participando de algum tipo de mercado cristão ou coisa assim?

A idéia que mais entusiasma em relação à nossa música é que ela seja eminentemente cristã. Mas reconheço que não me relaciono com a maior parte daquilo a que se chama atualmente música cristã. A música cristã devia ser a mais criativa, a mais literária, a mais suada, a mais charmosa. O que acontece é que a chamada música cristã pouco tem disto. É uma cópia segura do que já fez sucesso e tem objetivos de engordar o rol de membros das igrejas evangélicas. Porque não partilhamos desses objetivos dificilmente podemos ser participantes do mercado cristão.

A banda possui algum objetivo cristão, no sentido de evangelizar as pessoas? Afinal, qual o objetivo da banda e de suas letras?

Se alguém salvar a sua alma através da nossa ajuda que glória será maior? Mas não pensamos em fazer a nossa música com esse tipo de intuito. As nossas canções não são propriamente de persuasão teológica. Tenho algum problema em entender a música com uma determinada agenda. A música não serve para algo. Ela simplesmente é. Será que Bach, que dedicava a sua obra a Deus, tinha por propósito dilatar numericamente a cristandade?
As nossas letras falam de religião porque ela é o que mais essencial existe nas nossas cabeças. Seria impossível colocá-la de lado em qualquer processo criativo.

Algumas de suas letras possuem tons que, para algumas pessoas, podem soar meio ofensivos. Como vocês enxergam suas letras no dentro do contexto cristão em si?

A maior parte dos ouvintes dos Lacraus não são cristãos. Até agora nenhum deles manifestou a sua ofensa com as nossas letras. Ô Éber, o que é que te ofendeu?

Vocês, aparentemente, tem um pequeno selo chamado Flor Caveira. Primeiro, qual o sentido deste nome? Segundo, que tipo de bandas vocês procuram apoiar através deste selo?

A FlorCaveira nasceu num desenho ridículo que uma vez rabisquei num caderno. Uma caveira num vaso, entre as pétalas de uma flor. Depois pensei que o nome soava bem e que se apropriava para uma editora (um sonho que nascia em mim na altura), A Flor enquanto vida, a Caveira enquanto morte. Faz lembrar o Gólgota, né? Sem a morte de Jesus não teríamos esperança de eternidade mas talvez já esteja filosofando em demasia.
A FlorCaveira serve para editar os nossos próprios discos e os dos nossos amigos que consideramos serem bons. Até agora os contemplados restringem-se a um círculo apertado de pessoas que se conhecem bem entre si. Mas não está colocada de parte a possibilidade de vir a editar grupos de gente fora das nossas amizades.
Por norma, eu produzo os discos com condições razoavelmente domésticas. Para manter o prazer na produção discográfica. Agrada-nos a ideia que os artistas da FlorCaveira sejam todos cristãos. Por que razão há-de ter o Diabo toda a boa música?


Ações

Information

One response

20 06 2008
rafaelguedes

Grande Tiago! Estou procurando o link para download do disco dos Lacraus, mas tá foda!!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: